Entrevistas: Armindo Mendes

Sr. Armindo Mendes, exibe com orgulho a lembrança dos 75 anos de filiação ao Infesta.

Faz neste dia, 87 primaveras. Armindo Mendes é o sócio nº1 do Infesta, tem uma vida repleta de histórias muitas das quais ligadas ao seu clube de sempre. Vê com alguma preocupação os dias actuais da nossa sociedade assim como desta colectividade da qual é filiado há já 76 anos.

Filipe Dias: O que o motivou a ser sócio do Infesta?

Armindo Mendes: Antigamente não tínhamos nada com que nos entreter, o futebol era a única distração. O meu pai faleceu muito novo, com 47 anos e era tesoureiro no Infesta. Ao sábado, o meu pai que era industrial de camionagem, ia com o Sr. Moreira Marques, o Sr. Luís Sartório e o Sr. Ferreira da Silva, para a sede jogar a sueca. Ele trazia da padaria Ribeiro, que ainda existe no Porto, muito pão e a minha mãe comprava fiambre e queijo e fazia-se umas sandes na sede para se fazer alguns “tostões”. Aos domingos de manhã, o meu pai, o Sr. Domingos Fernandes que era muito conhecido aqui em São Mamede por Domingos “Francês” pois esteve emigrado em França e que era carpinteiro e eu, ia-mos para o campo do Infesta arranjar os barrotes de madeira, pois na altura, as balizas e toda a vedação do campo, eram em madeira. E o “bichinho” foi aparecendo e acabei por me fazer de sócio.

FD: Que recordações tem desses tempos, quer-nos contar algumas histórias?

AM: Olhe, recordo-me por exemplo de irmos ver o Infesta e tinham lá umas senhoras que tinham uma mercearia, eram quatro. Ao canto do campo, à beira do balneário, elas ficavam ali a ver o jogo e nem queira saber a barulheira que elas faziam a aplaudir o Infesta, era fantástico.

FD: E rivalidades? Há histórias desses tempos, com outros clubes?

AM: Sim, uma vez fomos à Senhora da Hora e estivemos a perder, depois demos a volta ao resultado e não ficou um barrote no campo direito, aquilo foi uma zaragata tremenda. A rivalidade era muito grande com o Senhora da Hora, Padroense, Progresso, Ramaldense, entre outros…

FD: O Sr. Armindo Mendes foi agraciado na última Assembleia Geral do Clube, com uma lembrança pelos seus 75 anos de filiação ao Infesta. Como se sentiu naquele momento?

AM: Nem eu sei, sinceramente. Eu sou uma pessoa que estou habituada a falar em público, fui autarca, sou presidente da Associação Columbófila há mais de 60 anos, entre outras coisas, de maneira que estou habituado a ter muitas intervenções em público. Naquele momento, eu não sei o que se passou comigo, eu tremia por todos os lados, estava agarrado à mesa para não cair, pois estava demasiado emocionado. São actos que nós gostamos de receber, de ver aquele reconhecimento…

FD: Como vê a actualidade com os jovens a afastarem-se cada vez mais de clubes como o Infesta?

AM: Hoje em dia é difícil. Eu vejo pela columbofilia que não há jovens a entrar. Esta juventude quer ir mais para as discotecas, centros comerciais, cinemas, etc… É difícil ainda para mais para um clube como o nosso Infesta. Tem de haver incentivos e locais em que as pessoas se sintam confortavelmente.

FD: O facto de o Infesta ter passado do Campo Moreira Marques para o da Arroteia, foi prejudicial para esse afastamento?

AM: Sim, o termos mudado de campo, foi prejudicial ao clube pois é mais longe do centro de São Mamede e as pessoas não vão ver os jogos. Eu avisei muitas vezes o Sr. Ramos que nem daqui por 20 anos, o Infesta tem o complexo desportivo. Era tudo “folclore” o que o presidente da camara disse na altura e está provado, pois já se passaram 4 anos e ainda não se vê nada. Em Matosinhos, desculpando o termo mas, qualquer “clube de tasco” tem um complexo desportivo e o Infesta, que é bem maior que a maior parte desses clubes, tem um campo num espaço de uma casa particular. Merecíamos mais respeito…

FD: Como vê o Infesta antes do Sr. Manuel Ramos e depois?

AM: O Sr. Ramos foi um bom dirigente, mas também tinha “uma boa carteira”. Não há dúvida nenhuma que o Infesta evoluiu bastante com a entrada dele, a construção do pavilhão, onde eu era presidente da junta de São Mamede de Infesta na altura, a construção da bancada, o arrelvamento, etc… Antes do Sr. Ramos chegar, o campo tinha sido “virado” e construiu-se uma bancada em terra. Essa bancada, construiu-se com a ajuda de sócios que pagaram uma quantia e que tiveram direito a um camarote. Isto foi no tempo do Sr. Gaspar Lino e foi com ele que o Infesta deu mostras de querer crescer mais um pouco, foi ele que deu o pontapé de saída para o crescimento do Infesta. Depois apareceu o Sr. Ramos onde conseguiu formar boas equipas e aí o Infesta começou a subir várias divisões.

FD: Os problemas económicos do dia-a-dia, afectam cada vez mais os clubes da dimensão do Infesta. Na sua opinião, o que se poderia fazer para ultrapassar essas dificuldades?

AM: Eu penso que havia de haver fusões de clubes, porque isto não está para se ter tantos clubes num só concelho. Por exemplo, temos o Leixões e o Leça, que só serve para rivalidades, mais nada… Se juntassem por exemplo o Padroense e o Infesta, eu não me importava nada. Eles até têm um excelente campo de futebol… Só assim é que estes clubes iam conseguir sobreviver. Mas eu sei que seria complicado mudar as mentalidades por causa das rivalidades e por isso, o Infesta tem de procurar soluções para o problema do complexo desportivo. Penso que com boas condições, tanto num pavilhão novo como no próprio campo de futebol, chamava mais juventude para o clube.

FD: Acha que por exemplo, o FC Porto do qual o Infesta é filial, também deveria dar algumas ajudas?

AM: Sim, deviam dar uma ajuda, pois saiu e continuam a sair muitos jogadores bons, do Infesta para lá. E não só para lá, até para o Benfica onde o Francisco Ferreira saiu daqui nos anos 40 para lá e chegou a ser internacional.

FD: A título de curiosidade, o Sr. Armindo Mendes nunca pensou em se candidatar a presidente do FC Infesta?

AM: Não, nunca pensei em candidatar-me porque há palavras que ficam na memória e o meu pai quando foi para tesoureiro do Infesta disse “Eu vou, mas dinheiro meu não há!”… O meu pai pouco antes de morrer, disse-me para eu entregar o dinheiro do clube ao Sr. Marcelino Ferreira que pertencia à Associação de Futebol do Porto, e também disse para eu entregar uma quantidade grande de ferro que tínhamos na garagem, para se fazer o gradeamento para o campo de futebol. Ele não se esqueceu do Infesta antes de morrer…

FD: Este ano o Infesta esteve na iminência de fechar portas. Como é que viu a constituição da Comissão Administrativa que actualmente gere o clube?

AM: Vi como uns grandes guerreiros… Foi preciso muita coragem e muito amor ao Infesta para terem assumido essa responsabilidade. Da maneira que as coisas estão a correr no nosso país, não se pode confiar em ninguém e apesar de todas as promessas de ajuda que foram feitas a este grupo de homens, é realmente preciso muita coragem para assumir uma responsabilidade destas. O que importa é manter o Futebol Clube de Infesta em pé e se ficar em primeiro, em último ou a meio da tabela, é preciso é mostrar principalmente a esses senhores da camara que abram os olhos de uma vez e que tratem as pessoas de igual forma…

Filipe Dias

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